As águas do Rio Xingu sofrem constantes
alterações. Na nossa região, ele começa
a se avolumar na segunda quinzena de dezembro, período em que começa a chover e
atinge o ápice da cheia no mês de março.
A partir do mês de abril ele começa a vazar;
no mês de julho reaparecem os pedrais e as praias, sendo que no final de
setembro ele atinge o ápice da seca. Quando ele está cheio, o período é ideal
para a pesca dos gigantes piraras, jaús e piraíbas, assim como surubim,
barbado, piramutaba, corvina, fidalgo, dentre outros. Quando começam a aparecer
as pedras no início de julho, além dos peixes acima, temos ainda uma pesca
farta de tucunarés, cachorras e bicudas e uma paisagem paradisíaca, com praias
de água doce com suas areias limpas e extensas que nos convidam para deliciosos
banhos de água doce.
Pelas fotos, podemos ver a evolução das águas
através da casa de barcos com o rio seco e o rio cheio. Olhando, não dá para
acreditar de onde vem tanta água! Mas acontece, ano após ano!
Como um véu que se rasga, mostrando o rosto da
virgem, abro as portas da varanda onde um majestoso Xingu se descortina à minha
frente, banhando meus olhos de êxtase, meu coração de ternura e uma paz,
daquelas que emana dos poros, que te dá vontade de abraçar o mundo e contar a
todos em alto e bom som que Deus existe e a prova maior disto tudo é natureza
estupenda que Ele colocou bem ali, à minha frente, ao alcance dos meus olhos.
Aos poucos, minhas janelas da alma começam a buscar
o infinito e começo a perceber as curvas do rio que se insinuam ao longe, como
cobras faceiras que buscam o calor do ralo sol nas tardes de inverno; as
corredeiras lépidas , ligeiras que como os amantes, na ânsia louca de encontrar
o seu caminho, afogam-se rapidamente em outras águas, borbulham , espumam,
submergem e já não sabemos se eram as mesmas águas ou se elas se perderam
dentro das outras.
A floresta, parte submersa, parte descoberta,
acena ora suavemente, ora freneticamente, como se estivesse numa eterna dança,
bailando com o vento.
As araras em par, como dois amantes, sobrevoam
o céu em um balé coreografado, ensaiado, soltando gritos de alegria e murmúrios
de prazer; O sol, com seu hálito morno beija suavemente a minha face, me
fazendo enrubescer; A brisa, como uma criança inocente, brinca com meus
cabelos, jogando-os sobre o meu rosto; As flores, como lábios carnudos e
rosados, se oferecem desavergonhadamente às abelhas, que ansiosas, sugam seu
néctar e voam dançando, em sinal de agradecimento; As nuvens, como um grupo de
garotas felizes e serelepes, brincam de roda, segurando as mãos uma das outras,
ora se juntando, ora se separando, formando figuras que minha mente tenta
decifrar; outras vezes, como meninos inocentes, puxando um papagaio de cauda
longa, cria nesgas no céu, mostrando buracos de céu misturado com pedaços de
infinito; Abro suavemente minhas narinas e deixo que uma lufada de vento
penetre meus pulmões e sinto, como um beijo apaixonado, profundo e voluptuoso,
o ar me faltar e tal qual o êxtase que toma conta dos corpos depois de um
momento de amor frenético e alucinante, sinto no mais íntimo e recôndito do meu
ser, uma dor, não daquelas que você sabe
que o teu corpo quer te pedir socorro por algo errado que esteja acontecendo,
mas uma dor que chega a ser gostosa, provocante, desejada, diferente e que,
voce não sabe ao certo como descrevê-la.
Sabe apenas que o teu corpo está exprimindo um
gemido que é ao mesmo tempo, um misto de dor e de um profundo, delicioso enorme
e ... inenarrável prazer.
O Xingu é mesmo lindo de doer!!!

Nenhum comentário:
Postar um comentário